DIVÓRCIO

Quando os filhos viram moeda de troca no divórcio

Como lidar com a tentativa de usar a guarda ou a convivência como pressão

Há uma situação no divórcio que fere mais do que qualquer disputa por bens: a de perceber que o outro está usando os filhos como instrumento de pressão. Acontece de formas variadas — a ameaça de dificultar a convivência, a chantagem de pedir a guarda para forçar um acordo melhor na partilha, o uso das visitas como recompensa ou punição. É uma dinâmica dolorosa, e quem a vive precisa saber que ela não passa despercebida pela Justiça.

O primeiro ponto a entender é que questões dos filhos e questões do casal são tratadas separadamente. A guarda e a convivência são decididas com base no interesse da criança, não como peças de barganha do acordo de divórcio. Quando alguém tenta vincular uma coisa à outra — "só facilito a convivência se você abrir mão de tal bem" —, está misturando o que a lei mantém propositalmente separado, justamente para impedir que os filhos sejam usados como moeda.

Isso significa que ceder à chantagem não é o único caminho, e geralmente é o pior deles. A guarda não é definida por quem pressiona mais, e sim por quem oferece as melhores condições ao filho. Um genitor que tenta usar a criança como arma de negociação não está, com isso, fortalecendo sua posição — em muitos casos, está fazendo o contrário, pois esse comportamento pode ser interpretado como contrário ao bem-estar da criança quando levado ao conhecimento do juízo.

Há um nome para certas formas dessa conduta: alienação parental. Quando um dos pais age para prejudicar a relação do filho com o outro — dificultando a convivência sem motivo, denegrindo a imagem do outro, transformando a criança em instrumento do conflito —, isso é tratado com seriedade pela lei. As respostas vão de advertência a medidas mais firmes, e em casos graves podem até afetar a guarda de quem pratica a alienação. Ou seja, usar os filhos como moeda pode sair caro justamente para quem tenta.

O que se recomenda a quem está desse lado é não revidar no mesmo terreno. A reação instintiva — endurecer, retaliar, usar a criança de volta — apenas aprofunda o dano aos filhos e enfraquece a própria posição. O caminho mais sólido é o oposto: documentar o que está acontecendo, manter uma postura de quem favorece a convivência e levar a situação à Justiça pela via adequada, demonstrando quem, de fato, está agindo no interesse da criança e quem está usando-a como instrumento.

No fundo, quem tenta transformar os filhos em moeda de troca aposta que o outro vai ceder para proteger as crianças do conflito. Conduzir bem essa situação é provar que existe um caminho melhor do que ceder: o de proteger os filhos justamente colocando a decisão sobre eles onde ela deve estar — no critério do que é melhor para a criança, e não no jogo de pressões entre os pais.

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